EM ENTREVISTA, MOLON AVALIA O PRIMEIRO ANO DE JAIR BOLSONARO

EM ENTREVISTA, MOLON AVALIA O PRIMEIRO ANO DE JAIR BOLSONARO

Com informações do site Congresso em Foco

Deputado federal, líder da Oposição na Câmara e presidente do PSB-RJ, Alessandro Molon foi escolhido pelos jornalistas que cobrem o Parlamento o Melhor Deputado Federal de 2019. Em entrevista ao site “Congresso em Foco”, Molon falou a respeito dos riscos que permeiam a democracia e as instituições republicanas na gestão Bolsonaro. Na sua avaliação, “o atual governo é péssimo”.

Molon, no entanto, defende que as oposições não se restrinjam a criticar ao governo e sejam mais propositivas. Para ele, Bolsonaro é seu próprio maior inimigo. “O maior inimigo do presidente da Republica é o próprio presidente da República. Ele cria crises o tempo todo, arruma problema onde não existe, arruma inimigos, ataca outros países, partidos, parlamentares, juízes e instituições”, avalia.

A entrevista concedida para o “Congresso em Foco” foi feita antes das polêmicas declarações de Eduardo Bolsonaro sobre a edição de um novo AI-5 e da revelação de Jair Bolsonaro de que pegou as gravações do seu condomínio que poderiam, segundo depoimento de um porteiro, envolver o presidente no assassinato de Marielle Franco. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Passados oito a nove meses do início do governo Bolsonaro, qual a sua avaliação?

Alessandro Molon: É difícil encontrar algum aspecto positivo em um governo que não tem projeto para o país, que não tem uma visão clara do que quer que o Brasil seja, que papel desempenhar no cenário internacional. A verdade é que Bolsonaro não imaginava que o Brasil pudesse cometer o erro de elegê-lo presidente. Por isso, não tinha um projeto para o país, e por isso o governo dele é assim muito atrapalhado.

O senhor não enxerga nada de positivo?

Alessandro Molon: Uma ideia que o governo defende com a qual concordo é a necessidade de desburocratização. Mas, na minha avaliação, o governo está implementando de um modo errado. Havia um grupo de trabalho com pessoas extremamente competentes e renomadas para preparar um projeto de lei. O governo pegou o projeto, que era excelente, rasgou e fez a MP da liberdade econômica. Um texto muito pior. O governo manteve programas sociais como o Bolsa Família. É uma iniciativa correta. Agora, em outras áreas é difícil apontar grandes acertos. De um modo geral, está se prestando o maior desserviço para o país. Na área de educação, ciência e tecnologia, relações exteriores, um desastre. A imagem do Brasil nunca esteve tão ruim no mundo como agora, um vexame completo. Ninguém ganha com isso. A destruição do meio ambiente, a destruição da Amazônia. O Ricardo Salles é o pior ministro das últimas décadas. Então, é um governo que é muito ruim. Não por acaso, bate recorde após recorde de desaprovação. É realmente um governo péssimo.

Há quem enxergue em alguns posicionamentos do presidente Bolsonaro e de outras pessoas do governo riscos à democracia. O senhor concorda?

Sim. Porque hoje em dia a maneira de se destruir a democracia não é uma maneira brusca que você já imediatamente coloca os tanques na rua. É algo mais sutil e, portanto, bem mais perigoso. É um movimento contínuo que vai minando as instituições. Vai normalizando o medo, a censura, a perseguição de quem pensa diferente. Coloca-se a população para se manifestar contra instituições como o Judiciário, contra o Congresso. O presidente da República diz “Eu respeito as instituições, mas eu respeito mais o povo”. Qual povo? O povo que vai nas manifestações que ele convoca? Estão jogando o povo contra os outros poderes? Armando a população, estimulando que a população se arme, com que objetivo? Dizendo que é para se defender de um golpe? Mas quem é que tem condições de dar um golpe hoje em dia? É um governo que nega a ciência, que nega a história. É um momento muito preocupante. Um dos mais graves da história do país.

E, nesse sentido, qual a importância do papel da oposição?

Eu considerei nas últimas eleições que era uma obrigação eu ser eleito novamente. Pelo grave momento que eu percebi que o país ia viver. Não lutar para chegar aqui novamente seria quase que uma deserção. A democracia corre risco, sim. É um momento também de muita cautela, muita prudência, e ao mesmo tempo de muita firmeza e combatividade para não permitir que as instituições sejam destruídas.

E agora que o governo tomou posse, o senhor acha que a oposição tem adotado uma linha correta?

Acho que acertamos em muitas coisas. Por exemplo, conseguimos, com um projeto de decreto legislativo do PSB aprovado na Câmara e no Senado, derrubar um decreto que impunha um sigilo maior aos documentos públicos. O decreto foi feito pelo vice-presidente Hamilton Mourão na ausência do presidente, mas certamente havia um acordo entre eles. Conseguimos fazer caducar uma medida provisória, a 867, que representaria uma anistia ao desmatamento de 6 milhões de hectares com a nossa obstrução. Mesmo sendo minoria, 130 a 140 deputados, com muita luta a gente consegue impedir esses retrocessos.

Qual é o grande desafio para a oposição?

Na verdade, acho que seria mais correto a gente falar em oposições. Porque há diferentes visões de oposição. Há visões diferentes e há projetos de país diferentes também. Isso dificulta muitas vezes a aprovação de uma proposta única da oposição.

E a sociedade, não estaria um pouco anestesiada? As pesquisas indicam descontentamento com o governo, mas isso não se reflete em grandes movimentações nas ruas…

Eu ainda sinto que há uma certa anestesia. Até porque talvez a sociedade tenha dificuldade para acreditar em tudo o que está acontecendo. Se convencer de que fez uma aposta que não parece ter sido a mais certa. Então, essa anestesia, essa falta de uma reação mais forte, é um pouco fruto disso. Mas esse efeito hipnótico que o presidente causou na população, ele não dura para sempre. Ele passa. Ele acaba. Uma hora, esse descontentamento passa dos limites e estoura.

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Em 1947 o Partido da Esquerda Democrática transformou-se em Partido Socialista Brasileiro. Somente em 1986, com a redemocratização, o PSB voltou ao cenário nacional, quando realizou o primeiro encontro nacional do partido.

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